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Warrior of Storm


INTR'APOCALYPSE

Meu coração um dia haverá de ser diamante, dessedentado por fel e lava.

Minhas veias serão entupidas por gravetos secos gerados por substância coagulada.

A areia alva do regurgitar de Tiestes formará meus poros e meus pulmões.

Minha pele será fria argila das vísceras de Adão.

Meu suor será o visco formador da espuma do mar que gerará deusas.

Minhas córneas serão brotos do núcleo terrestre, que emanarão línguas de fogo à longínqua miragem de um horizonte paradisíaco.

E quando esse dia chegar, estarei preparada para sussurrar a mais dolorosa gargalhada que nenhum tempo jamais ousou celebrar.



Escrito por *Gi* às 18h50
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A UMA AMIGA

 

Pois é... tradução de  olhos enigmáticos  que me observam, me afugentam, me refugiam, me constrangem,

mas acima de tudo me intrigam, com sua maneira bem particular de vigiar. Uma boa amizade!

 

PSICOMULHER

Psicomulher
de malícia santificada,
de santidade psicovelada,

de olhos atentos,
de sons e gestos,
do eterno e de momentos,
colocando pausas na mente inquieta

do servo e do servidor,
da caça e do caçador,
da ilusão querendo ser sim
ou do sim querendo ser não
... não parar

... não fugir
... não recuar
... não negar quem se é, nem o que se quer!
Apenas mantenha-se, Psicomulher!



Escrito por *Gi* às 21h23
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ANTES DO AMANHECER

 

Me perco nas curvas de uma liberdade remota e utópica,

passeio sobre uma vontade ilícita de tocar o intocável

e persevero num desejo de lançar-me ao vazio que esse prazer proporciona.

Tento ponderar meus atos, visando evitar desencontros

com os que querem o que querem de mim,

porém o inevitável é desbravador e transforma minhas formas humanas

em um diário da robótica escrito pelas regras das mãos dos olhos que julgam.

 

Quisera viajar para a realidade

e fazer desse meu anseio a experiência que concretiza a lucidez da alma;

Quisera fugir da ilusão e aproximar-me do gozo intenso dessa passagem terrena,

ligando o mover de minha prisão

à mais pura materialização dos deuses carnais, humanizados;

Quisera liberar os medos em um único grito cósmico,

enquanto provo do inadequado alimento do ventre da mãe do mundo.

 

Tanto gosto...

e não se pode ter.

Morri... morremos!

E talvez jamais saberei o que é ser Filha de Eva.

- ter formas sem fôrmas,

ser formas,

ter sonhos sem sono –

Talvez, jamais conhecerei o sopro incandescente e a voz doce de um anjo,

sob a forma de uma pálida rosa,

nem o sabor do primeiro fruto,

concebido no seio do Éden.

Espero ainda pela alvorada,

quando sentirei o fio da espada

que o condenado passional carrega em uma bainha de fogo;

Esse fio que se difere pela delicadeza de suas feições.

 

Pobre é o homem que se esconde sob a implosão

de seus obscuros sentimentos,

pois é nesse momento que brotam as mais incontroláveis infelicidades.

Lançar-se o imprevisível é o que nos faz viver.

 

 



Escrito por *Gi* às 00h50
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CACOS

 

Tudo o que se quer fazer

que se faça.

E se o poema tiver que gritar,

que beba seu fôlego

nos cacos da mais bela taça.

 

Beba tudo, o grito é poema;

Tudo é poema, beba o grito;

Beba o poema, tudo é grito.

É tudo?

 

Tudo o que se quer não é tudo o que se vê,

mas se vejo, o grito é breve

e nos cacos interfere, se inscreve,

ressoa, desintegra,

revolve o poema e tudo muda;

muda tudo e finge que finda,

parece que muda o fim,

reescreve enquanto alegra,

parece que chega ao fim.

Hoje... quem sabe outro dia...

O grito beba o poema

e o poeta beba a mim,

Bebendo também os cacos da mais bela taça, que agora bebo também,

quebrada, grito lançado e esquecido.

Cacos que  descem acariciando a garganta,

tão sutis quanto os dentes de um jaguar

rasgando a tenra pele de um homem recém nascido.

E o sangue que se cria

da carne dilacerada

aos cacos acaricia;

E lubrifica meu grito...

Enquanto o poema é escrito.



Escrito por *Gi* às 00h38
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DESABAFO II

 

Em meu quarto oculto e triste

estou brindando a saudade:

infortúnio que restou,

prova de infelicidade.

 

O algoz é meu relógio

e a lâmina é o vento

cortando minh’alma em tiras,

salgando nesse tormento.

 

Pensamentos ecoando

na mente tenra e inquieta;

aleatório massacre

que destrói sua própria meta.

 

Já não penso no resgate

da cabeça tão confusa

porque vivendo essa ausência

não há sol  que me traduza.

 

Sou infeliz borboleta

com as asas machucadas,

que vê suas ganas de vôo

lentamente destroçadas.

 

Fui construindo um império

e forças vieram de ti...

unindo os dois caminhos

nas nuvens adormeci.

 

Mas, presa nessa distância

e à solidão que domina,

do que foi um sonho lindo

resta somente a ruína.

 

Ruína que me maltrata,

anseio estar a teu lado,

vivendo toda a alegria

que marcou nosso passao.

 

Meu travesseiro é meu mestre,

teu abraço é como um guia,

lágrimas são meus lazeres

onde aproveito meu dia.

 

E a noite é só lembrança

onde é exposto o corte

e onde sangra o coração

que não consegue se forte,

assim, sentindo bem perto,

o amargo sopro da morte.




Escrito por *Gi* às 23h22
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DISTRAÇÃO

Girrezi Duarte Ribas

Distraio meus olhos na noite vadia

e sinto a agonia da escuridão;

desfaço desejos que aos cegos atingem

e brinco nas margens da desilusão.

E trago a mim mesma um trago da lua

que me faz tão nua de anseio qualquer;

já venho tocando a pele do vento

a ver esse intento me despir mulher.

A força que soa em letal freqüência

é tal conseqüência da renúncia vã;

que me encerra em almas de almas solitárias

carregando karmas de um falso amanhã.

Então, sem fronteiras, vão meus pensamentos

divertindo lentos sonhos e ideais;

caminhando eu sigo pela rua estreita,

pois ela me acolhe em seus planos carnais.

A noite, tão longa, me acolhe sem vida

porque fui perdida e ela me encontrou;

beijando seus lábios me entrego a um porto,

onde o dia morto me desperdiçou.

Medos e coragem de buscar a glória

podendo a estória ter triste final;

são os que me fazem esperar segundos

e em rios profundos afogar meu mal.

Tendo poucos anos, mas vivendo tanto,

deixando que o pranto seque ao fogo rei,

logo descobri que os passos são marcados

e, se derrotados, os revelarei.




Escrito por *Gi* às 23h13
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ÍNTIMA

Tamanho é o caos, é a confusão

de um eu sem convicção.

A mente que gira e gira fazendo o rumo esquivar...

é o eco no saguão.

E a solidão é o elo que se perdeu.

Sei quem sou eu: apenas um não.

É o segundo que se move

desce, sobe, apressa;

é o temor na mão do casmurro e do fechado,

da chacrinha e do cadeado.

Temo algum ou que virou vilão.

É a rua mansa que forma o vão:

é desejo proibir,

proibido permitir,

permitido possuir?

Sabe Deus porque criou?

Sabe Deus ou também não?

Se é um mal, quem inventou

se não um Deus?

Qualquer prova? Tentação?

Mente gira, e gira hoje

girou ontem, mas cansou.

Evitou, consagrou, deflorou...

Muitos dias apartando

o inverno do verão

e o inferno do perdão.

Que perdão, que mal dispor,

mesmo em um, outros virão

e eu, como bom senhor,

e eu, como bom cristão,

ou talvez um bom pagão,

evitei os desenlaces

nos gritos, via miragens,

nos beijos a aflição...

órgão que jamais tive:

o coração!

Busquei, tentei...

até o medo enfrentei,

mas me limitou o chão.

Ai de mim, e quanto tempo!

da vingança de Minerva

má e fria depressão.

Caiu... a porcelana rompeu.

Até hoje choro em vão.

Chora? Ou se arrepende?

Agora é indiferente.

Já foi. Passou...

e a dúvida regressou.

Só foi passear por aí

e nunca vendeu o lar;

esteve sempre à espera

do pedido, do retorno.

O ninho visitou, então...

Não sabe por quanto tempo,

não sabe de nada, não.

Mas finca em seu espaço

as agulhas que me ferem,

como que deixando claro

que trouxe a escuridão.

Mas eu peço pelo tempo,

tempo, tempo... novamente

até o fim da jornada,

até a consolação.

Que consolo tem a alma

que não tem hora pra nada,

nem conhece a estrada

da luz ou da perdição que fundem-se nos aflitos,

trazendo os conflitos?

Gemer no pólo do Demo

ou morrer sem satisfação.

 

 

 

 

 

SONHEI CONTIGO

Sonhei contigo essa noite:

tua linda face não vi

teus cabelos me laçavam

e teu aroma senti.

Tão doce, te invejam as rosas,

insanas mãos te corriam,

perfumes do anjo mais puro

sorrisos da alcova irradiam.

Sonhei contigo essa noite

e nada me fez tão imensa:

o sol clamava teu brilho

e Afrodite, tua presença.

Enquanto me aproximava,

teus lábios me provocavam...

e o ar quase me fugia

se teus braços dominavam.

Sonhei contigo essa noite

entre recato e loucura.

Teu abraço apaixonado

era a mais doce tortura.

Tinha medo do desgosto

e que não fossem meus teus beijos

pois teu corpo me queimava

nos mais intensos desejos.

Sonhei contigo essa noite

tão logo eu despertei

porque tu me recordaste

que a outro me entreguei.

Um outro que também amo,

querendo como a um irmão.

Que meu corpo um dia teve

mas nunca meu coração.

Sonhei contigo essa noite,

que sonho mais debochado...

Começou no paraíso

e terminou num pecado.

Pecado amar escondido

e ter outro sem amor.

É te querer loucamente,

te encontrar freqüentemente

e fingir na tua frente,

quase morrendo de dor.



Escrito por *Gi* às 23h03
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ENTÃO, O VELHO STANISLAVSKI...

Girrezi Duarte Ribas       

 

Teu olho da cor do céu exprime tua força,

ora velha, ora moça,

já não sei como vigiar.

Receio tinha eu e ainda tenho

do que passa com o desenho

dos dois corpos a guerrear.

(a velha e a moça)

 

Não entendo a razão do medo vago

e das cautelas que trago

no momento de encarar

a esses pontos tão bravos de energia

que lucidez irradia

e teu riso faz brotar.

(a moça e a velha)

 

Peço que preencha meu ego e monotonia

com toda tua sabedoria,

que sustente meu andar.

E peço que me faças amante da inteligência

e que, tua gigante existência

 plante em mim ganas de voar.

(a velha e a moça)

 



Escrito por *Gi* às 22h44
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UMA E OUTRA

 

Tão lindas, são as estrelas

vivendo juntas, enamoradas,

profundeza que se perde

quando se vêem separadas.

 

Tão lindas, coroa e pedras!

Pólo de soberania,

enquanto a virtude cresce

sublime sonho irradia.

 

Tão lindas, noite e lua!

Das quais depende o destino.

Sem uma há desequilíbrio,

sem outra, há desatino.

 

Lindas são até as letras,

distantes, não têm sentido;

unidas, são melodia

a tudo que se há vivido.

 

Lindas também as palavras,

que se vestem de vagão:

uma ante outra, libertas,

fazem do medo canção.

 

Tão lindas, morte e vida...

...e um ciclo regenera!

Se amam tanto essas fases

que uma pela outra espera.

 

Tão lindas são as lembranças

que jamais nos chegam sós.

Lembrando de quem viemos,

agride a ti sobre nós?

 

De nós, o mesmo sorriso,

de nós o mesmo defeito

de nós a mesma virtude,

mas não o mesmo direito?

 

Mas se o verso desaponta...

...Ai! Terrível ignorância!

*esse poema foi gentilmente publicado na Revista Xenite, pela amiga Mary Anne: http://www.revistaxenite.com

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por *Gi* às 21h39
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VENTO

 

Meu silêncio é vento forte,

que ruma o nada, é morte,

que traz o gosto, desgosto...

que invade a tumba e retumba

a voz do nó.

 

Nó dos pêlos, dos zelos,

dos cabelos que amparam ombros,

escombros do dia fútil - inútil -

e a fúria do céu azul.

 

Azul me cobre, tão pobre

e, nobre, descobre o vento - sangrento - ,

rebento de meu silêncio mortal,

final,

signo de uma jura sepulcral

de nunca, jamais, chorar.

 

Pranto de horror, rumor, fervor,

a dor não se apieda

nem pede que pare, então...

Não, não! Não alcança a mão;

mão do diabo e diabo de mim.

Enfim...

põe fim á tudo que é ilusão.

 

Nas artérias o sangue corre:

- Que jorre!

Desejo que pinte os quatro vértices

do lado, do lodo, do quarto,

fantasma farto de podridão.

No olho escuro, imaturo,

inseguro facho de lucidez...

e sensatez... e tal surdez

de quem não tem asas e voa.

E se faz mal.

Um animal, animal sem coração,

frustrado e abandonado,

a espera do vento forte.

E a sorte da vida da morte?

esperando a vinda do trem!

 



Escrito por *Gi* às 16h13
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NÔMADE

Ah! O medo que tenho hoje

do espectro das madrugadas,

- famintos vermes polares,

entranhas dilaceradas -

é o frio que endurece as veias,

sangra o corte mais profundo,

vertendo sal e veneno

do coração moribundo.

 

Chamas vivas, carniceiras,

eriçam os lamaçais,

lançando espinhos certeiros

no peito dos canibais.

 

Eu, sim, sou ama das sombras,

antropófaga de mim

devorando meus pecados

no ciclo que não vê fim.

Pecadora das andanças

que o velho sonho criou

renasço dos pesadelos

onde o sol jamais pisou.



Escrito por *Gi* às 16h06
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INCÓGNITA

 

Não olhe meu rosto

tentando me desvendar;

Não fale meu nome

buscando me questionar;

Não me peça um sorriso querendo me enfeitiçar;

Não veja os defeitos

tentando me condenar.

Nem busque virtudes

tentando me endeusar...

nem sonhe comigo

querendo me aprisionar...

nem lute comigo

tentando me dominar.

 

Não viva em meu corpo

tentando me violentar,

nem morra em meu peito querendo se aconchegar;

Não destrua minha alma tentando se apoderar,

nem ofereça mão amiga

se esta for apunhalar.

 

Não toque meu rosto

querendo me envaidecer;

Não beije meus lábios

tentando me enlouquecer;

Não faça elogios

sem meu ego conhecer;

Não chegue tão perto

sem  de mim nada saber;

Não diga que ama

se não pode perceber

que tudo o que digo

é tentando me esconder...

e não querer...

e não sofrer...

e esquecer...esquecer...

esquecer!

 



Escrito por *Gi* às 16h02
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ESTRELA

 

Linda estrela solitária

que adentra meus pensamentos,

amiga fiel de Atena:

revela teus movimentos.

 

Como eu, és tão distante.

Como eu, extingue o brilho.

Sozinha estás em meus olhos,

de meus passos és ladrilho.

 

Penso vidas, choro dores

deste monstro que amedronta:

nada sente, nada toca,

e em juramento desponta.

 

Sou loucura e tua tristeza,

discípula de xamãs;

guerreira que à noite morre,

renascendo nas manhãs.

 

Linda estrela, sofredora,

do pranto o clarão sombrio,

afoga-te em mar de sonhos,

aquece as veias no estio.

 

índia com lança nas mãos:

- crava-te ela em teu peito!

Estrela, virgem esboço

de meu caminho desfeito.

 

Razões te trazem a mim,

desespero alerta à luz;

cinco pontas mata adentro

que o corpo desnudo reluz.

 

Cabelos beijados pela brisa,

lisos de fel, estrela amiga,

passearemos em teu seio

tornando-nos verso e cantiga.

 

Linda estrela, mãe dos deuses,

dos velhos rituais forjada,

és meu canto e meus abraços

por rochas sendo adorada.

 

Mesmo em tal leito destino

nos olhos levo teu rio:

curando-me quando enferma,

satisfaço teu vazio.



Escrito por *Gi* às 16h00
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DESPEDIDA

 

Com os pulsos vertendo a seiva

da vida que se faz medo,

deixo aqui o sofrimento

do cosmos frio e sangrento

dos dias que findam cedo.

 

Tenho todo o tempo entre as linhas

que atravessam mãos e pêlos;

tempo que beija a pálida face

e o sorriso que já não nasce

no seio dos desmazelos.

 

Um bilhete no espelho,

cala-se a guitarra triste,

assim como calam-se críticas

entre meninices místicas

do semblante que não mais existe.

 

Ao namorado, o perfume

que o sangue coloriu,

e as vistas escurecidas

não estão mais divididas

entre o negro e o vazio.

 

Fotografias, poemas;

dezesseis... era normal...

Era normal ao meu jeito,

mas o terror em meu peito

fez parecer natural.

 

- De todos, somente ela

não podia desistir:

parecia sorridente

mas no fundo era carente

e teve que sucumbir.

 

Boletins com dez em tudo

hoje pousam em sua cama;

e sua boneca da sorte,

que acompanhou sua morte,

hoje esses versos declama:

fui de menina a mulher,

fui de mulher a frescura,

mas minha alegria real

entranhou em meu punhal

junto à minha sepultura.



Escrito por *Gi* às 15h54
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DESABAFO

 

Te ignoro querendo te procurar;

te procuro querendo te odiar;

te odeio querendo me aproximar;

me aproximo querendo te ignorar.

 

Te vejo mesmo querendo não ver;

te sinto querendo te esquecer;

te insulto querendo te esconder;

e isso me faz sofrer.

 

Eu te renego tentando fugir

e me afasto querendo te ouvir;

te toco e tento não sentir;

te evito, mas volto a cair.

 

Anseio por tua partida,

mas morro ao te ver partir;

tento controlar meus olhos que vivem a te seguir;

sorrio quando te vejo

mas quero te destruir;

e o que machuca mais é a maldição de ter que fingir.

 

Não consigo me conter

e um dia irei dizer:

teu desprezo mata aos poucos

e só tua presença me faz renascer.



Escrito por *Gi* às 15h52
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DERRADEIRO LUSITANO

 

É nessa alcova pequena

onde minh'alma serena ousa agora descansar,

descarregando as mágoas

em rios de límpidas águas que se atreve idealizar.

 

É nesse quarto pequeno

onde meu corpo moreno desvenda uma redenção.

No teto desfigurado,

um veleiro desnorteado carrega um coração

coroado de azul morto,

mostrando que em algum porto floresceu a esperança;

que um dia o dia existiu,

mas com ele o sol partiu, fomentando uma lembrança.

 

No mesmo quarto moreno

meu corpo sempre pequeno vagueia nas madrugadas,

ansiando por um aviso,

e, entre o teto e o piso, trama a rota das jornadas:

conhecer todas as luas, buscar por becos e ruas

o que um dia o mar tomou;

melhor tivesse impedido,

e não tivesse partido a lugar que não chegou.

 

É nessa alcova pequena,

onde minh'alma serena é seiva dos que ficaram.

Hoje conto sem tristeza

que fizeram com a nobreza as lágrimas que secaram:

olhos já sem esplendor,

no rosto as marcas da dor que anestesiaram o riso.

No mesmo quarto sereno,

descansa o corpo moreno,

sem vida, amor nem juízo.

 



Escrito por *Gi* às 15h49
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CONSELHO

Voa, coração alado,

na brisa de outros espaços,

vai-te e explora algum rumo,

aproveita bem teus passos.

 

Já te machuquei por vezes

mas sempre estiveste aqui;

tu também me golpeaste

e jamais te compreendi.

 

Corpo brusco, mente tenra,

tentei fazer-te melhor...

impossível aquietar-te

sem dar lágrima e suor.

 

Voa e vai-te ao longe,

vive alguma liberdade.

Esquece todo teu pranto,

esquece tua sanidade.

 

Doa risos sem destino

e teu sangue insensato

em troca de um consolo,

já que te fui tão ingrato.

 

Viaja, sofrido amigo,

em teu próprio interior,

impede que mágoa e planos

te sirvam qualquer rancor.

 

Se tua voz quiser calar-te,

se teu sorriso apagar,

regressa ao refúgio

que nunca te irei negar.

 



Escrito por *Gi* às 15h45
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Aqui algo mais bairrista...thanx, Diessy!



Escrito por *Gi* às 21h04
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Escrito por *Gi* às 20h55
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O CANTEIRO

O canteiro dos meus centros

outra vez vem de visita,

cortejando as moradoras

do bairro que o céu limita.

 

É onde passávamos tardes

entoando a voz do vento

e, esperando a lua cheia,

bailávamos noite adentro.

 

 

Nas manhãs de primavera

colhíamos margaridas

que adornavam os cabelos

e aliviavam feridas.

Pois sim, haviam feridas,

que o mar, desnudo, criou

quando abraçou nossos filhos

ou nossos homens tomou.

 

Foram quartos e mais quartos

das horas de riso e dor,

que acabavam sem começo,

que aqueciam sem calor.

Era o gozo da ternura

com o aroma da parreira:

sabor da fruta madura

da Lisboa pioneira.

 

Pobres? Sim... Jovens? Talvez.

Mas a vida aproveitaram:

lusitanos corações

que com iguais festejaram.

 

Nesse canteiro eterno

a visão desfalecia

digo pois, com tanta calma,

a alma adormecia.

Os sentidos desmaiavam,

o íntimo flutuava em paz;

eram horas de descanso

que há muito não tenho mais.

 

Meus centros, memória e verso,

guardam a fé do canteiro,

e, ainda que o corpo falte,

é da mente prisioneiro.

 

 

Canteiro que me fez rir;

canteiro que fez chorar.

Enterradas em teu manto

estão histórias sem par.

 

Hoje, aqui voltaste alegre

em tuas visitas diárias

ao leque dos pensamentos

com tuas imagens lendárias.

E, hoje sinto, canteiro,

que jamais verei teu fim;

mesmo findando meus dias

estarás para sempre em mim.

 



Escrito por *Gi* às 20h51
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MAIS SIMPLES

Mais simples que ver a aurora

é velar o anoitecer;

mais simples que ir embora

é enraizar-se e não ver.

Mais simples que o som da vida

é o dom da morte nascer;

mais simples que uma partida

é do regresso esquecer.

 

Mais simples que a agonia

é a solidão esconder;

mais simples que a covardia

é sem coragem sofrer.

Mais simples que a falsidade

é ser quem não se quer ser;

mais simples que um fim de tarde

é sob a noite adoecer.

 

Mais simples que um mistério

é desvendar um querer;

mais simples que um rosto sério

é um pranto dissolver.

Mais simples que a alma em pena

é a carne perecer;

mais simples que uma novena

é orar e em nada crer.

 

Mais simples que a pele em brasa

é com o vidro a romper;

mais simples que a água rasa

é no limbo apodrecer.

Mais simples que a corrente

é acorrentado gemer;

mais simples que o sangue quente

é com meu sangue escrever.

 

Mais simples que o vento forte

é na brisa contorcer;

mais simples que a própria sorte

é com a sorte perder.

Mais simples que uma figura

é o abstrato entender;

mais simples do que uma cura

é do veneno beber.

 

 



Escrito por *Gi* às 20h40
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ÍNTIMA

Tamanho é o caos, é a confusão

de um eu sem convicção.

A mente que gira e gira fazendo o rumo esquivar...

é o eco no saguão.

E a solidão é o elo que se perdeu.

Sei quem sou eu: apenas um não.

 

É o segundo que se move

desce, sobe, apressa;

é o temor na mão do casmurro e do fechado,

da chacrinha e do cadeado.

Temo algum ou que virou vilão.

 

É a rua mansa que forma o vão:

é desejo proibir,

proibido permitir,

permitido possuir?

Sabe Deus porque criou?

Sabe Deus ou também não?

Se é um mal, quem inventou

se não um Deus?

Qualquer prova? Tentação?

 

Mente gira, e gira hoje

girou ontem, mas cansou.

Evitou, consagrou, deflorou...

Muitos dias apartando

o inverno do verão

e o inferno do perdão.

Que perdão, que mal dispor,

mesmo em um, outros virão

e eu, como bom senhor,

e eu, como bom cristão,

ou talvez um bom pagão,

evitei os desenlaces

nos gritos, via miragens,

nos beijos a aflição...

órgão que jamais tive:

o coração!

Busquei, tentei...

até o medo enfrentei,

mas me limitou o chão.

 

Ai de mim, e quanto tempo!

da vingança de Minerva

má e fria depressão.

Caiu... a porcelana rompeu.

Até hoje choro em vão.

 

Chora? Ou se arrepende?

Agora é indiferente.

Já foi. Passou...

e a dúvida regressou.

Só foi passear por aí

e nunca vendeu o lar;

esteve sempre à espera

do pedido, do retorno.

O ninho visitou, então...

 

Não sabe por quanto tempo,

não sabe de nada, não.

Mas finca em seu espaço

as agulhas que me ferem,

como que deixando claro

que trouxe a escuridão.

Mas eu peço pelo tempo,

tempo, tempo... novamente

até o fim da jornada,

até a consolação.

Que consolo tem a alma

que não tem hora pra nada,

nem conhece a estrada

da luz ou da perdição que fundem-se nos aflitos,

trazendo os conflitos?

Gemer no pólo do Demo

ou morrer sem satisfação.

 



Escrito por *Gi* às 20h30
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